David Capistrano da Costa Filho, morto aos 53 anos no dia 10 de novembro de 2000, foi um exemplo que dignificou a classe política brasileira. O mesmo se poderia dizer de outras facetas de seu caráter inquieto: foi igualmente exemplo de dignidade como cidadão, profissional médico, filho e pai de família. David, por sua história de vida, suas lutas quase titânicas contra a opressão e as terríveis doenças de que foi vítima, tornou-se referência para mais de uma geração.
Tive a múltipla honra de ter sido seu companheiro como médico e ativista político. Fomos ambos secretários da ex-prefeita Telma de Souza. Quando ele se elegeu prefeito para sucedê-la, conquistei o meu primeiro mandato de vereador. Na Câmara de Santos, fui líder do seu governo. Por vezes, divergimos e fomos adversários pontuais, mas jamais deixamos de ter uma relação de lealdade e companheirismo.
Não lembro de ninguém mais idealista e desprovido de vaidades fúteis e ambições materiais. Seu universo de interesses orbitava em torno de um brutal compromisso com a justiça social e da férrea convicção de que apenas a razão e a atuação política seriam capazes de superar as contradições e as desigualdades humanas.
Não bastasse possuir as raras virtudes do desprendimento pessoal e da coerência, David foi um médico sanitarista de singular competência. Como secretário de Saúde e prefeito de Santos, entre 1989 e 1996, revolucionou o sistema de saúde pública do município, transformando-o em foco de atenções da mídia e de especialistas, nacionais e estrangeiros.
Jamais se apagarão da história as intervenções que promoveu na saúde mental, com o fim dos hospitais-depósitos como a Casa de Saúde Anchieta em Santos, e no combate às doenças sexualmente transmissíveis, com o pioneiro programa de distribuição dos coquetéis de medicamentos contra a Aids, também feito pela prefeitura santista e que viria a ser adotado pelo Governo Federal.
Suas concepções e idéias influenciaram as políticas de Saúde em todo o País, fato reconhecido por autoridades insuspeitas como os ex-ministros da Saúde José Serra e Adib Jatene. A colaboração e o intercâmbio de idéias que manteve com estes, apesar das nítidas diferenças que possuíam, demonstram que o sectarismo jamais foi uma característica da sua personalidade. David só não tolerava o preconceito, a soberba e as injustiças. Diante deles, transformava-se num guerreiro temido, num inimigo ferino.
Como militante de esquerda não foi diferente. Suas idéias provocaram controvérsias, alimentaram debates, estimularam a reflexão. Foi assim no seu berço ideológico, o Partido Comunista Brasileiro, e posteriormente no Partido dos Trabalhadores, do qual foi um líder influente. Presente em todos os debates sobre os rumos da esquerda brasileira, tornou-se figura indispensável para a compreensão histórica do movimento socialista brasileiro.
Passados 5 anos de sua ausência, vemos que ele faz muita falta para todos nós, seus amigos e admiradores, e mais ainda para o Brasil, tão carente de homens públicos com a sua qualidade e o seu desprendimento.
Dignidade, competência, coragem, generosidade, coerência e honradez são palavras que se repetirão sempre que se falar no nome de David Capistrano da Costa Filho. Até seus piores inimigos se curvarão, ante a realidade incontestável de que sua vida foi inteiramente dedicada ao próximo, particularmente àqueles mais humildes e injustiçados. David lutou como poucos, pela vida, contra a morte.
(*) Fausto Figueira é médico, deputado estadual e 1º secretário da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo. |