Ainda sinto na boca o amargo cheiro e o gosto de sua morte. Foi há pouco e de minha janela vejo a Ilha das Palmas, o mar ainda bate grosso e um transatlântico cruza o horizonte.
Conversamos hoje, e fazia muito tempo que não conversávamos. Falamos da vida, da medicina, do mar, brincamos sobre todos os aniversariantes, você havia nadado e falava do prazer que isto lhe proporcionava, reclamou do sudoeste que chegava forte, e a câmera mambembe do Denari deve ter captado as suas imagens, sua alegria.
Médicos, sempre lidamos com a vida, e você como obstetra mais do que ninguém fez da sua profissão uma arte da vida.
De repente uma onda, o mar que tanto prazer te deu, te engole, e nós todos teus amigos gritávamos de maneira desesperada para que as bóias atiradas em tua direção fossem alcançadas. Chegou a hora! Assistimos a tua luta, participamos da tua luta e impotentes vimos você sumir debaixo das ondas...
Massagem cardíaca, respiração boca a boca, teus amigos todos assistindo o teu embate, gritando, torcendo, chorando, minutos, horas, secreções, cânulas, oxigênio, entubação, lutamos todos, chegou a hora!
Gosto amargo e cheiro de morte... Sensação de absoluta impotência. Por fim, o diagnóstico da morte: midríase, ausência de batimentos cardíacos, parada cárdio-respiratória.
Luiz Fernando, você nos pregou uma peça, reuniu os amigos e fez questão que participássemos da tua despedida. Valeu Luiz Fernando, valeu a tua vida. Tua mulher, teus filhos, tuas pacientes, teus amigos agradecem por tudo que você fez e representou... Valeu Luiz Fernando, descanse em paz.
(*) Fausto Figueira |