Fausto Figueira
O governador do Estado, José Serra, anunciou recentemente a construção de um túnel ligando Santos a Guarujá, na entrada do Porto de Santos, próximo onde hoje funciona o serviço de balsas. A ligação seca entre os dois municípios é uma velha aspiração da população local e uma necessidade evidente. Já no final dos anos 1940, o engenheiro Prestes Maia publicava artigos defendendo a obra, prevista em seu Plano Regional de Santos.
Considero um erro crasso a localização do túnel anunciada pelo governador José Serra.
Concordo com a proposta já defendida publicamente pelos prefeitos de Santos, João Paulo Tavares Papa, e de Guarujá, Maria Antonieta, de construção de uma ligação integrando as duas margens do porto, nas proximidades da Alemoa-Saboó, à esquerda, e Ilha Barnabé, à direita, contemplando igualmente o tráfego de veículos de passeio e o transporte de cargas. Esta é também uma alternativa de amplo interesse regional, pois dotaria a malha rodoviária da Baixada de um importante recurso para aproximar ainda mais os municípios e aliviar o pesado trânsito nas suas principais artérias.
Prestes Maia, em texto publicado no jornal Correio Paulistano, edição de 8 de junho de 1947, já alertava: “O porto de Santos não é obra para remendos e improvisações. [...] se não desejarmos ver o progresso de São Paulo retardado e paralisado pela falta de um escoadouro marítimo, precisamos pensar desde já na realização de uma grande obra, não de aspecto simplesmente local, mas de caráter nacional”.
Na época, a grande novidade era a então recente implantação da Via Anchieta. Para minimizar o impacto dessa obra, o urbanista propunha a construção de marginais da Via Anchieta, uma rodovia ligando-a ao Guarujá, a integração dos modais, inclusive marítimo de passageiros, com a instalação de um terminal adequado no Valongo, e a interligação rodo-ferroviária, através de uma ponte no Saboó, ligando São Vicente, Santos, Guarujá, e daí para Bertioga e Litoral Norte.
Seguindo o ensinamento de Prestes Maia, é necessário que pensemos regionalmente, e não apenas localmente. E, nesse sentido, a ligação que deveria ser prioritária é uma ponte, ou túnel, na altura do Saboó, ou Alemoa, ligando as duas margens do porto e integrando o Sistema Anchieta–Imigrantes ao sistema rodoviário do Litoral Norte, sem causar maiores impactos nas malhas viárias de Santos e Guarujá, já bastante sobrecarregadas.
Em termos de viabilidade econômica, é legítimo supor que uma ligação nesses termos, que contemple também o tráfego de carga e os sistemas rodoviários, poderá arrecadar mais recursos do que priorizar apenas veículos de passeio, garantindo, efetivamente, o maior interesse da iniciativa privada num eventual processo de concessão.
Mas é principalmente pensando no futuro que devemos colocar nossa visão. Afinal, qual o futuro do Porto de Santos? Nos próximos anos ainda há margem de manobra para acomodar a expansão do movimento de cargas, que sempre se apresenta próximo de seus limites. Em 2003 estimava-se o limite operacional em aproximadamente 70 milhões de toneladas, número atingido em 2006. Em 2007, estimava-se que esse limite fosse pouco mais de 110 ou 120 milhões de toneladas, números que não devemos demorar para atingir. E depois?
Ao colocarmos um túnel na porta de entrada do maior porto do hemisfério sul estaremos limitando, definitivamente, o calado dos navios que poderão vir a entrar por ele. É legítimo fazer isso?
A resposta parece óbvia. Diante da dimensão do equívoco do governador José Serra, urge a necessidade de que se unam prefeitos e políticos dos municípios portuários da Baixada, dirigentes da Codesp e de empresas que operam no Porto de Santos, para ampliar e qualificar o debate sobre a inadiável ligação seca entre as duas margens do estuário santista.