
As lembranças da infância em São Paulo – junto com os pais e mais 11 irmãos -, o precoce interesse por política estimulado pelo ativismo do pai, a militância no movimento estudantil, o contato direto com o horror implantado pela repressão militar, a carreira profissional e o ingresso na política partidária. Em uma hora e meia de depoimento para o Projeto Memória e História Oral da Fundação Arquivo e Memória de Santos, o deputado estadual Fausto Figueira buscou resumir seus 62 anos de vida, pincelando fragmentos de sua trajetória que se confundem com a historia recente do país e de Santos, cidade que escolheu para morar há quatro décadas.
O projeto, iniciado em 2008, já ouviu cerca de 100 personalidades de várias áreas de atuação em Santos e os depoimentos ficarão no Arquivo Permanente à disposição do público. “Nosso interesse é colher testemunho de quem vivenciou e participou da história recente da cidade, dando suas impressões das transformações ocorridas. São fontes de uma história que ainda não foi escrita”, explica o historiador Roberto Tavares, coordenador do Projeto de Memória e História Oral.
Para Fausto, o sindicalismo forte, determinado, foi uma das grandes perdas sofridas por Santos nas últimas décadas. No período, a cidade apresentou grande crescimento da Zona Noroeste e ocupação dos morros e, agora, vive o boom da descoberta de petróleo e gás, que precisa ser organizado, em sua opinião. O deputado demonstrou preocupação com o processo de verticalização da cidade e o que isto pode causar de impacto na infraestrutura urbana e nos serviços à população. “O grande salto a ser dado é o planejamento estratégico regional nas áreas da saúde, transporte, porto, vias de acesso”, cobrou.
O deputado Fausto Figueira ressaltou estar sentindo um “orgulho imenso como petista pelo crescimento econômico com distribuição de renda promovido no país e pela respeitabilidade do Brasil no cenário internacional. “O país do futuro, que antes parecia uma falácia, esta se tornando presente. Acho que sou privilegiado. Vi o homem descer na Lua, os Beatles cantarem e agora Lula presidente”, brincou.
Capítulos da vida - Ao contar um pouco de sua história, Fausto revela que respirou política desde que nasceu. Os avós eram constitucionalistas e o pai, o médico Fausto (falecido precocemente aos 47 anos de acidente de carro), era ligado à esquerda católica, aos frades dominicanos. Foi um dos fundadores do jornal Brasil Urgente, fechado com o golpe de 64 e cuja coleção o deputado doou recentemente ao Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. Nos primeiros anos do golpe militar, a família chegou a dar abrigo a perseguidos pela ditadura e uma das irmãs de Fausto foi presa no DOI/CODI.
Influenciado pela família, logo a genética prevaleceu. Fausto foi orador da turma do 4º ano do curso primário, dirigente da União Paulista Estudantes Secundários (UPES), presidente de grêmio estudantil., dirigente da Juventude Estudantil Católica (JEC) e um dos fundadores do Centro Acadêmico da Faculdade de Ciências Médicas de Santos, integrando a primeira turma de alunos.
Por conta da faculdade, veio morar em Santos em 67. Daquela época, lembra-se da efervescência dos clubes sociais, das barracas de praia que tanto lhe impressionaram, da frenética vida noturna da Boca de Santos. Vivenciou a eleição e a cassação de Esmeraldo Tarquínio, de quem veio a se tornar um grande amigo mais tarde.
Com a morte do pai, prestou concurso e transferiu-se para a Faculdade de Medicina da USP, para ficar mais próximo da mãe e dos irmãos. Formado em 72, foi trabalhar no Hospital das Clínicas, emocionando-se até hoje ao lembrar o impacto que a dura realidade da época lhe causou. Ali, ele começou a receber torturados políticos, viu muita gente morrer e outros serem agredidos por militares, mesmo feridos, dentro do próprio hospital.
Já casado com Tanya (que conheceu ainda estudante em sua primeira estada na cidade), retornou em 75 para Santos para dar aula na cadeira de cirurgia na Faculdade de Medicina. Em sua carreira profissional, atuou 15 anos como coordenador de saúde da Cosipa e, na década de 80, foi diretor do Hospital Guilherme Álvaro, onde trabalha até hoje como médico, e dirigiu o Escritório Regional de Saúde. Também foi diretor e presidente do Sindicato dos Médicos.
Em 88 começou sua aproximação com o PT e Telma de Souza, que, eleita prefeita, o nomeou chefe de gabinete e, depois, secretário de Turismo. Fausto decidiu alçar outros vôos e tornou-se vereador em 92, reeleito em seguida. Em seu terceiro mandato na Câmara de Santos foi eleito deputado estadual e, agora, cumpre seu segundo mandato. |